A Maratona pela Paz é um dos marcos fundacionais da Liberté: duas edições, separadas por três anos e meio, nas quais aconteceu algo difícil de explicar sem ter visto. Pessoas em situação de cárcere, vítimas de crimes, pessoas libertas, familiares, maratonistas profissionais e funcionários judiciais ficaram juntos na mesma linha de largada e cruzaram juntos a mesma meta. Até onde sabemos, foi a primeira maratona do mundo realizada dentro de uma prisão com essa composição.
Como nasceu a ideia
Depois de uma série de jornadas de "Portas Abertas" na Unidad Penal N°15 de Batán, Pampa teve a ideia de fazer uma "Maratona pela Paz na prisão". Estava inspirado em outra maratona também chamada Maratona pela Paz realizada na província de Corrientes e organizada pela associação Víctimas por la Paz. Mas não queria apenas copiar a ideia: na Liberté, a maratona tinha que servir para algo mais do que correr — para que vítimas, pessoas em situação de cárcere, familiares e funcionários pisassem o mesmo asfalto.
Mas antes foi preciso esperar. Quando Pampa apresentou a ideia ao Dr. Mario Juliano —já formalmente padrinho da Liberté—, o juiz mostrou-se reticente no início. Ouviu, e o fez esperar: «vamos vendo», disse, naquele tom ponderado que lhe era próprio. A ideia ficou em suspenso enquanto avançava outro projeto que Pampa também havia proposto: pintar um mural enorme sobre a parede do pasoducto que se via da oficina, aquele que acabaria sendo El Mural Más Lindo Del Mundo. E foi aí, ao término desse mural, que Mario se aproximou e, quase em voz baixa, disse a Pampa: «se você topar, vamos organizando a maratona».
22 de março de 2019: a primeira largada
A primeira Maratona pela Paz foi realizada em 22 de março de 2019, dentro da Unidad Penal N°15 de Batán. O percurso foi traçado utilizando as ruas de circulação interna do presídio, de ida e volta. A largada aconteceu a partir da Liberté e a chegada e o ato de encerramento foram realizados na Comunidade Pastoral Universitária. Houve música ao vivo, premiação e uma série de oradores que coincidiram num estado de emoção muito marcante, especialmente quando chegou a vez do presidente da Federação de Maratonistas, cujos diretores haviam viajado para fiscalizar a competição.
Nesse mesmo dia, como parte do programa cultural que acompanhou a maratona, foi inaugurada a mostra de quadros «Enamorate si podés» da artista Betina Ferrara.
Da maratona não participaram apenas integrantes da Liberté, seus familiares e outras pessoas em situação de cárcere da UP15. Também correram funcionários judiciais, agentes penitenciários e os próprios maratonistas profissionais que vieram para fiscalizar. Muitos competiram usando as camisetas doadas da maratona inspiradora — camisetas que os participantes guardam, até hoje, como verdadeiros tesouros.
Fiel aos princípios da Liberté, a maratona foi inclusiva por design: cada participante, agrupado por categoria, mediu seu próprio nível de desempenho com quem estava numa situação física semelhante. Algumas pessoas, inclusive, tiveram a oportunidade de participar no modo caminhada.
O dia em que Diana chegou a Batán
A essa primeira maratona veio, pela primeira vez na vida, a Dra. Diana Márquez. Era sua primeira visita à prisão de Batán. Ali conheceu a Liberté, e o que viu mudou sua agenda. Três anos depois, seria co-criadora do Restaurante Punto de Paz —o primeiro restaurante do mundo gerido por pessoas em situação de cárcere— e hoje é secretária da Cooperativa Liberté. A maratona foi a porta: a aliança com Víctimas por la Paz já havia começado com o mural, mas foi naquele dia —março de 2019— que Diana cruzou pela primeira vez os muros de Batán e começou a se tecer o vínculo do qual nasceriam vários capítulos compartilhados — entre eles o Restaurante Punto de Paz.
2019, ano coral
A maratona não foi a única coisa importante para a qual a Liberté deu o ombro naquele período. Em 2019 estavam sendo lançados, com suas inevitáveis controvérsias, os Comités de Prevención y Resolución de Conflictos: Gabinete, Comité e a Assembleia conhecida como Batán rinde cuentas. Nesses espaços participavam lideranças da Liberté junto a funcionários penitenciários das áreas administrativas, o Chefe do SPB e até o Secretário de Segurança da Província. E em dezembro desse mesmo ano foi inaugurado outro marco da mesma série: El Mural Más Lindo Del Mundo, pintado em 19 de dezembro de 2018 sobre a parede do pasoducto que os trabalhadores da Liberté viam todos os dias durante toda a jornada.
19 de novembro de 2022: a segunda edição
A segunda Maratona pela Paz foi realizada em 19 de novembro de 2022, organizada novamente por Víctimas por la Paz e Liberté, com as mesmas características da primeira: maratonistas profissionais, pessoas em situação de cárcere, familiares e funcionários do Poder Judiciário correndo juntos. Desta vez a Liberté já estava instalada em seu Território atual, e a maratona foi utilizada também como ocasião para homenagear o Restaurante Punto de Paz —que naquele momento já funcionava há meses dentro da Unidade. A largada e a chegada foram atos realizados integralmente na instituição cooperativa.
Correr para reparar
Se o restaurante nos ensinou que uma mesa pode fazer o que nenhuma cela consegue, a maratona nos ensinou algo paralelo: a rua também repara. Vinte e um quilômetros corridos em paralelo entre uma vítima e uma pessoa em situação de cárcere transformam a distância entre as duas. Depois, já não é a mesma distância. Por isso —junto a Víctimas por la Paz e à Federação de Maratonistas— estamos avaliando realizar uma terceira edição.