Imaginemos uma professora diante de sua turma, explicando o período da última ditadura militar argentina. Ela o faz, diz, "de maneira neutra". Quer ser objetiva, não influenciar, deixar que cada um tire suas próprias conclusões.
"Aí há um posicionamento político que se esconde sob uma suposta neutralidade ideológica."
Esteban Pintos
Sociólogo formado pela UBA, especialista em Metodologia da Pesquisa e Doutor em Educação, Esteban Pintos vai abrir essa cena — e muitas outras parecidas — no sábado, 16 de maio, em uma nova edição do Enclave Libre, o ciclo de Universidad Liberté. Desta vez, com um detalhe que não é menor: ele se conecta via Zoom, enquanto cerca de 40 pessoas acompanham o encontro de forma presencial na Unidad Penal N°15 de Batán, no âmbito dos processos educativos que Liberté sustenta ali há anos. Ao mesmo tempo, uma audiência virtual aberta pode se juntar de qualquer ponto do país.
O título da jornada resume o espírito: "A política que não se vê: educação e vida cotidiana".
O cotidiano também é ideológico
Esteban tem um repertório de exemplos que parecem anedotas e, vistos de perto, são tudo menos inofensivos.
"Quando uma professora comenta para outra, no início do ano letivo, que 'deixou a turma bem limpinha', dando a entender que no ano passado havia muitos estudantes que não deveriam estar em sala de aula."
Uma frase de corredor, dita sem maldade, que carrega uma posição claríssima sobre quem merece estar dentro do sistema educativo e quem não merece. O mesmo, diz ele, ocorre com a forma de dar aula, com abrir ou não a participação aos estudantes, com a maneira de se comunicar: "Tudo isso responde a posicionamentos e marcos políticos/ideológicos que, na maioria dos casos, não são conscientes."
"Isso não é pra mim, não sou professor"
É o que muitos de nós pensamos quando ouvimos "sociologia da educação". Esteban desmonta assim:
"Todos temos opiniões sobre quase tudo. Essas opiniões respondem a um marco teórico e filosófico determinado. O que acontece é que não sabemos disso. Quando alguém diz 'esses negros deveriam ser mortos todos', bem, isso está vinculado a uma teoria determinada. A forma de nomear as coisas é atravessada pelo ideológico, no falar cotidiano."
Dito de outro modo: a reflexão sobre como o político se infiltra no que dizemos não é patrimônio de professores nem de acadêmicos. É assunto de qualquer pessoa que, alguma vez, abre a boca.
O que muda por acontecer em Batán?
Esteban é claro: o conteúdo central não muda. O que muda é o entorno.
"Mudam os autores vistos especificamente no Programa de uma disciplina, ou a intensificação de alguma problemática porque corresponde a um plano de estudos. Mas o que não muda é a reflexão sobre como o político, o ideológico nos atravessam na vida cotidiana sem que tenhamos consciência disso."
E ainda assim, vale parar um segundo no onde. Pensar "a política que não se vê em sala de aula" diante de 40 pessoas em situação de cárcere não é o mesmo que pensá-la numa faculdade. Porque entre quem escuta presencialmente há pessoas que, alguma vez, fizeram parte daquelas turmas que algum professor deixou "bem limpinhas". Há pessoas que conhecem, na própria pele, o que acontece quando uma instituição decide quem sim e quem não. A conversa deixa de ser teórica.
O fato de o Enclave acontecer nesse território, no âmbito do trabalho cotidiano que a Coop Liberté sustenta em Batán junto a famílias atravessadas pelo sistema penal, professores e voluntários, dá outra densidade ao exercício. Não é a mesma coisa falar de "o que a sala de aula reproduz" em abstrato e fazê-lo onde essa reprodução tem rosto, nome e endereço.
A gestão: Cecilia Pintos
Este Enclave chega à Coop por iniciativa de Cecilia Pintos, cofundadora de Universidad Liberté, colaboradora permanente de Liberté, e — além de tudo isso — irmã de Esteban. Sobre por que escolheu este tema, ela responde:
"É uma das linhas de pesquisa que ele desenvolve, e acho que pode ser interessante a reflexão sobre como o ideológico e o político atravessam a vida cotidiana sem que nos demos conta. Quando falamos, sempre também falamos de outras coisas sem saber. A sala de aula e a educação não são exceções."
Pedimos também um olhar mais pessoal sobre o expositor:
"Como irmã de Esteban, gostaria que levassem a sua paixão, um pouquinho do seu percurso de trabalho — que é muito extenso e laborioso —, a sua solidariedade, e o seu esforço permanente de coerência entre o que diz e o que faz."
Como participar
- Quando: Sábado, 16 de maio de 2026, das 10h às 12h (Argentina).
- Expositor: Esteban Pintos (via Zoom).
- Audiência presencial: cerca de 40 pessoas em situação de cárcere, na Unidad Penal N°15 de Batán, no âmbito do trabalho educativo de Liberté.
- Zoom (audiência virtual aberta):
Entrar na reunião. - YouTube ao vivo: Canal Cooperativa Liberté.
- Custo: Gratuito.
- Certificado: Digital de participação, avalizado por Universidad Liberté.
Inscrições abertas para toda a comunidade. Já há mais de 148 pessoas inscritas. Participe por aqui: universidadliberte.org/enclavelibre/EL-160526.